segunda-feira, 15 de outubro de 2018



Nem um til, viu?

Tomei conhecimento de uma descoberta que mudará a história da cristandade. Talvez algumas pessoas fiquem perplexas com ela, mas é necessário que seja repassada, pois é um assunto de relevante importância ao mundo cristão. Não deixem de ler até o final, uma vez que sua vida cristã pode sofrer uma mudança radical. Descobriu-se que a Bíblia, livro usado pelas religiões chamadas cristãs, nas suas versões traduzidas por João Ferreira de Almeida e usada pelos evangélicos brasileiros, publicada pela primeira vez em 1681, a partir do Textus Receptus e do texto hebraico Massorético é uma grande farsa. A descoberta prova que muitos textos falados por Cristo e pelos apóstolos, segundo as traduções para o português, foram totalmente adulterados. Fiquei muito decepcionado com isso e não sei mais como conseguirei seguir como evangélico, se a maioria dos textos que me embasavam não me foram passados corretamente. A versão verdadeira para o texto de Mateus 5: 38 e 39 é a seguinte: “Ouça o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Torture o homem mau. Se alguém lhe ferir a face direita, estando você de posse a uma arma, atire-lhe na testa, não nas pernas”. Outro texto equivocado encontra-se em Mateus 26: 52, por ocasião da prisão de Jesus: “Então Jesus lhe disse: Use da espada para defender-me; porque os que não o fizerem, à espada morrerão”. A verdadeira tradução dos originais bíblicos foi divulgada neste período eleitoral brasileiro por meio de alguns teólogos defensores da “moral e dos bons costumes”, daqueles que são capazes até de soprar no cano do revólver, após detoná-lo. Um texto que me deixou mais perplexo ainda foi o que diz respeito a nossa cidadania. Antes acreditava que não era desse mundo, que minha cidadania era celestial, mas a verdadeira versão de João 15: 19, diz: “Vocês são cidadãos do mundo e o amor a ele lhes fará, por força ou violência, instaurar o meu reino na terra (em nosso caso, Brasil)”. Não era de acordo com a ideia sacerdotal de crer na ascensão da igreja ao governo, pois houve outros exemplos na história e as consequências foram desastrosas. Com a descoberta da verdadeira versão bíblica, que devo fazer? Devo embarcar na mesma ideia da maioria dos que se dizem cristãos no Brasil?

Sempre acreditei que o capítulo 13 de I Coríntios, aquele que fala do amor, mesmo sabendo da sua complexidade em cumpri-lo, fosse daquele jeito mesmo. Grande foi o meu desapontamento em saber que Paulo não escreveu aquilo. Consta na nova descoberta que o seu original é assim: “Eu falo a língua dos homens. Ela diz que bandido bom é bandido morto. Eu conheço todos os mistérios e ciências políticas, não é com amor e com pregação que se resolverá o problema do homem. Eu tenho muita fé que todas as mazelas do mundo devem ser resolvidas com austeridade, com força, pois me foi dado o poder de jugar e condenar o pecador. Não sofra, não suporte, não espere. Resolva com suas próprias mãos.” (I Coríntios 13: 1-7).

O mais incrível foi saber que na verdadeira versão da suposta tentação de Cristo, a coisa aconteceu ao revés. Não foi o diabo quem ofereceu os governos do mundo a Cristo, se ele o adorasse. Jesus procurou a sua ajuda para governar e resolver os problemas político da humanidade, inclusive da fome: “Disse Jesus ao diabo: a humanidade vive de pão. Transformemos pedras em pães e, associados, resolveremos todos os problemas.” (Lucas 4: 3-4).

E a cruz? Foi só um acidente de percurso. Não era necessária no plano da salvação. Para que morrer? “Disse Jesus: Moisés levantou a serpente no deserto, mas para que vocês tenham êxito neste mundo, não posso ser levantado.” (João 3: 14-15). O plano de salvação do mundo foi pelo ralo, segundo o novo pensamento que tem como base a versão bíblica descoberta. “Chegou a hora de colocar, de fato, o plano em prática!” Creem os adeptos da versão descoberta.

Como os textos citados, são muitos os que mudarão a história da cristandade. Cristãos subirão ao poder, jugarão vivos e mortos, terão o poder de mandar direto para o inferno ou para o céu, agora sem necessitar da Cruz, polarizarão o mundo. “Não assumir o poder conosco é assinar a confissão de esquerdistas, de reacionários, de ímpios, é a morte!”. Dirão os novos donos da verdade. Permaneceremos com a versão secular ou acreditaremos na nova “descoberta”? Lembre-se: Nem um til, viu?

Francisco Fernandes
22 de setembro de 2018

Referências utilizadas:
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; Mateus 5:38,39
Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Mateus 26:52
Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. João 15:19
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. 1 Coríntios 13:1-7
E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão. E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus. E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás. Lucas 4:3-8
E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3:14,15

quarta-feira, 16 de maio de 2018

EU

Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim; já dizia Dorival Caymmi na “Modinha para Gabriela”, eternizada pela novela global. Achei incrível a declaração de um amigo, quando viu uma senhora a observar um berçário e chamar os seus ocupantes de “anjinhos”. Para ele não eram “anjinhos” e sim, “cobrinhas”, nasceram assim. Nasci uma serpente, isso afirma o salmista ao dizer que, alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras; têm veneno semelhante ao veneno da serpente; são como a víbora surda...  Minhas ações confirmam isso. Sou herdeiro de uma geração má, destituída de bondade, amor, perdão, misericórdia, e cheio de justiça própria. Justiça que o profeta compara a panos sujos de menstruação. Que justiça, em?! Como posso dizer que sou justo? Não posso, pois, aos romanos, São Paulo diz: Como está escrito; Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram... Assim me descobri! Sou semente de uma geração inimiga da semente divina, e não vejo solução humana para a resolução desse problema existencial. Não há como mudar a cor do etíope. Lembram-se do lendário rei do Pop, Michael Jackson? Muito menos modificar as manchas do leopardo. Minha maldade é inerente. Tentei encontrar, de todas as formas, um meio de coibir o mal que há em mim, tudo em vão. Busquei na religião, mas somente encontrei líderes que me enganaram e cujo seu deus é o próprio ventre; e pessoas que, presunçosamente, oravam desta forma: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens...” Tentei a solução na filosofia, mas descobri que a ciência me inchou e me tornou, prepotente e “superior” aos outros. Arrisquei na política, porém, com a intenção da governabilidade, envolvi-me na corrupção. Decidi ser ateu e descobri que não passo de um néscio achando que não há Deus, mesmo diante dos seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, claramente vistos na criação. Ai de mim! Miserável homem que sou!
Diante de inúmeras tentativas entrevi uma luz lá no final do túnel! Um sábio contemporâneo nos proporcionou uma pérola, daquelas que surgem inesperadamente, quando já se tentou de tudo para solucionar o mal da humanidade: “Bandido bom é bandido morto”. Já havia escutado outra bem parecida: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. De fato, um morto não pode segui-lo! Mesmo assim prefiro a frase do intelectual, pois é mais incisiva e meche diretamente com o cerne do problema. Mata! Não cumpriu a lei, executa! Às adulteras, apedrejamento; aos ladrões, mãos decepadas; aos estupradores, castração. Sinto muito pela decepção ao notável e a seus discípulos, mas todas essas formas de punição já foram testadas e com frustração, pois nunca resolveram o problema do caráter humano.
Descobri que sou “bandido morto”! Não porque a tal frase de efeito tenha causado implicação em minha vida, pois não fora cunhada com a mesma conotação que a compreendo, mas porque estou crucificado com Cristo e vivo não mais eu, estou morto. Deus tem dessas coisas; às vezes usa jumentas para falar e, se possível, até pedras a clamarem, mas a essência da minha mudança foi anunciada pela Palavra de Deus, quando revelou o meu batismo na morte e ressurreição de Cristo, a minha morte, a morte do EU.        
Texto que inicia a série “Eu, tu, ele, nós, vós, eles, em CRISTO?”
16 de abril de 2018
Francisco Fernandes

sexta-feira, 30 de março de 2018




Cidade Futuro, Ano novo, Velha Tradição

Em toda mudança de ano nos enchemos de novos planos, planejamos novas empreitadas, empreitamos novos desafios e desafiamos a criatividade. A mesmice não é legal, o espírito do ano novo nos enche de esperança e todos queremos coisas novas, prosperidade, saúde, ser felizes. Imbuído desse sentimento e analisando o slogan que traz a gestão municipal “Jaguaribe Cidade Futuro”, pensei cá com meus botões, por que não fazer uma série de mudanças em alguns nomes de lugares e de pessoas, que talvez soem mal para uma cidade futurista? Na Jaguaribe Futuro não ficaria legal nomes como Rua da Gaveta e Rua do Riacho, sugeriria Alameda do Cacifo e Bulevar do Ribeiro. Daria um ar mais parisiense para a cidade. Uma cidade moderna com um conjunto de pontos comerciais chamado Calor da Bacurinha é, no mínimo, ridículo. Poder-se-ia substituir por um nome mais científico para ocultar o sentido malicioso, como por exemplo, Centro Comercial Ardência no Regaço. Novos bairros surgem e os antigos não deveriam mais manter seus nomes pitorescos. O bairro Curralinho poderia chamar-se Vivenda Pequeno Aprisco. O distrito de Feiticeiro se chamaria de Distrito de Hierofante, ocultaria o significado obscuro do nome. Mudanças são necessárias a uma cidade que cresce.
Imaginem chegando alguém ao aeroporto municipal e tomando um táxi com o Mané Malassada, ainda que já esteja aposentado, ou com o Meia-luz. Seria mais chique ter como taxista o Sr. Manuel Tortilha, algo mais próximo do espanhol, ou o Sr. Penumbra, menos jocoso. Consertar seu relógio no relojoeiro e cartunista Francisco Delgado, nome de artista hispânico, seria muito mais elegante que ir à oficina do Chico Tripinha. Almoçar no restaurante do Sr. Francisco Abastado seria muito mais apetitoso que comer na churrascaria do Chico Rico. Comprar bebidas finas no minimercado do Sr. José Distraído seria mais requintado que comprar um litro de vinho na bodega do Zé Lesado.
Não acredito ser legal para uma cidade desenvolvida, um restaurante chamado Maria da Caboca. Imaginem o nome “Restaurante A Legatária da Mestiça”. Que nome fino! E uma fábrica de reaproveitamento de caixas velhas, com o nome de Sopapo, de propriedade de um cara chamado Nego Véi? Jamais deveria encontrar espaço numa cidade de primeiro mundo. Seria chiquérrimo, visitar uma cidade hiperdesenvolvida, comprar uns souvenires em seu centro comercial e embalá-los em caixas recicladas confeccionadas pela Solavancos Reciclagem, de propriedade do Sr. Afrodescendente Idoso. 
Tudo isso seria politicamente correto e uma verdadeira IDIOTICE. É fato que almejamos boas mudanças para 2018, e que Deus nos conceda, mas ser escravizado por tal ditadura é deprimente. A cidade cresce, os projetos podem até ser visionários, mas as tradições, ainda que infrinjam alguns conceitos pós-modernos, manter-se-ão. Sempre serão, rua da gaveta, rua do Riacho, bairro Curralinho, distrito de Feiticeiro. Mesmo quando não estiverem mais entre nós, as personagens sempre serão, Malassadas, Marinheiros, Meia-luz, Zé Lesado, Chico Rico, Maria da Caboca, Chico Tripinha, Nego Véi, as que farão parte do patrimônio imaterial de Jaguaribe.    
Francisco Fernandes
https://cronicaeuconto.blogspot.com.br/
29 de dezembro de 2017

sábado, 11 de novembro de 2017

Falsos Amigos

Em um contexto político, Falsos Amigos seriam os membros daquela raça ignóbil, que de quatro em quatro anos passeiam nos terreiros eleitorais para, mentindo, conquistar votos. Falsos Amigos pode ser também o sinônimo de palavras que até são semelhantes, mas, no entanto, significam outra coisa aqui no Brasil.
Se você for para um restaurante em um país de língua espanhola e chamar um “camareiro”, não estará chamando uma pessoa para arrumar sua cama, mas um garçom. Não peça um copo com água, peça um “vaso”, pois “en una copa” você deverá tomar um bom vinho e, “en una taza”, um saboroso café. Se quiser elogiar um prato, poderá dizer, sem medo, que está “muy exquisito”. Não se preocupe, não estará dizendo que está estranho, mas que está saborosíssimo.  Após a refeição não comerá uma sobremesa e sim, “un postre”, pois “sobremesa” é o bom papo que os comensais batem após saborear uma boa receita. Deverá ter muito cuidado com os Falsos Amigos, pois eles poderão criar sérios constrangimentos. Quando eles dizem que, sendo eleitos, resolverão os problemas sociais das crianças, podem estar referindo-se aos seus próprios filhos. Se dizem que solucionarão os problemas de moradia, podem estar pensando em como comprar sua mansão em Orlando - Flórida, ou em um paraíso caribenho. Cuidado com os Falsos Amigos!
Um colega, professor de espanhol do Centro de Línguas de Maracanaú, perguntou a um aluno de primeiro semestre onde se localizava La Paz. Ele respondeu muito carinhosamente: “¡La paz está en mi corazón, profe! Gostaríamos que nosso país vivesse a paz tão desejada, em todos os sentidos, mas ela foi surrupiada pelos larápios, Falsos Amigos, que deixaram de investir, principalmente na Educação e na Segurança Pública. Bem-aventurados aqueles que alcançam a verdadeira paz, a paz no coração!
Para nós, professores de espanhol, são muitas as situações inusitadas com os tais Falsos Amigos. Falava em uma aula com iniciantes que borracha em espanhol se diz “goma”. Um gaiato não hesitou em perguntar: Professor, se borracha é goma, como se faz tapioca na Espanha? No mesmo nível de humor, característico dos cearenses, um outro fez a seguinte interrogação: Profe, se menino é “niño”, como é leite em pó em espanhol? Essas são as confusões que há e que os alunos, graciosa e inconscientemente, utilizam como estratégia de aprendizagem. Os argentinos chamam de “quilombo”, os espanhóis chamam de “lío”, para nós pode ser embaraço. Cuidado! “Embarazo” em língua espanhola é gravidez. Será por isso que aqui no Ceará “um bucho” pode significar problema, confusão? Mas confusão mesmo é o que está ocorrendo na Catalunha - Espanha, com o secular movimento independentista que estourou nos últimos dias e, por incrível que pareça, vem incentivando o Sul do nosso país a falar também em referendum, para “alejarse” do Brasil. Opa! Mais um falso amigo, pois tal vocábulo significa, distanciar-se. Bem significativo, uma vez que aleijados mentais, falsos irmãos e Falsos Amigos são aqueles que se acham superiores ao restante dos brasileiros. Imaginem se o Nordeste se tornasse um país independente! Como viveriam os demais, sem nosso humor, nossa música, nossa literatura, nossas belezas naturais...?  
Francisco Fernandes

Jaguaribe, 12 de outubro de 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dindim Gourmet (continuação)

A aurora surge ainda com maior intensidade e o crepúsculo acontece com muito mais beleza, na cidade que já não é mais tão singela. Tranquilidade continua sendo um de seus atributos e a autoestrada federal ainda continua no mesmo local. Rio e BR já não são mais os limites leste / oeste e aquele, que antes palmilhava seus 610 km diretamente ao mar, agora desagua no imenso lago artificial com capacidade para 6.700.000.000mᵌ (seis bilhões e setecentos milhões de metros cúbicos) de água, o Castanhão.  Já faz 24 anos que pus pela primeira vez os pés na cidade do queijo e os dois postos de combustível não são mais os limites norte / sul da sede municipal. O açude de Feiticeiro não mais se apresentará como um quebra-cabeça de barro rachado, pois o grande Orós transpõem suas águas ao imprescindível reservatório. O Cruzeirinho de Aluísio Diógenes tronou-se um bairro saneado, construído em regime de mutirão e o Mutirão é agora um grande bairro engendrado pelo êxodo rural, inevitável nas cidades crescentes, mas capaz de decidir uma eleição municipal. Aquele que, desembestado em sua caminhoneta Pampa, corria em direção à sua recém-inaugurada loja na esquina da 8 de Novembro com a Cônego Mourão, agora é o maior empregador da região e um dos grandes empreendedores do estado. Fez da Tuboarte uma das referências jaguaribanas.
Acabou a disputa entre o Clóvis e o Carmela, pois as escolas do estado, Cornélio, Raul e Sinó, se firmaram com excelência na formação cidadã e do Ensino Médio e os jovens, que antes não tinham acesso à universidade, agora podem trilhar o tão sonhado caminho do sucesso profissional, já não mais exclusividade dos mais abastados. As batatas fritas do Miquinho foram substituídas pelos sushis, os sanduiches, os açaís e o que é de mais atual para o paladar jaguaribano, mas nada supera as saudosas coxinhas do Morais, literalmente com um ossinho de galinha em lugar do palito. Dizem que o peculiar sabor era resultado de um tacho que nunca era lavado. Que importava? A alta temperatura do óleo consumia qualquer impureza. Oxalá houvesse um grande tacho desses em Brasília, para consumir toda a impudência dos coxinhas políticos.  É também inadmissível vir a Jaguaribe e não visitar a famosa barragem de Santana. Banhar-se nas águas que descem gravitacionalmente das suas inúmeras bicas é um prazer indescritível; e degustar o saboroso peixe frito do Barto, é uma obrigação.
Jaguaribe também entrou na era da automação, pois até universidade pública semipresencial faz parte do rol das instituições de formação. A UAB já tem formado dezenas de competentes profissionais. Foi ela a responsável pelo meu pioneirismo como professor de língua espanhola na região. “¡Pues así son las cosas de la vida de la gente!”. Mas há também desconforto com a tal tecnologia digital e o desenvolvimento, pois não se usufrui mais do confortável seletivo da Vale do Jaguaribe. As vagas para a capital são disponibilizadas por um portal online e os espaços tão apertados das poltronas só são adquiridos quando não são preenchidos no Cariri. Uma das coisas que pode confortar viagens tão desconfortáveis é uma agradável leitura deste veículo de comunicação, Arautos do Vale. Já na casa das octogésimas edições, que circulam mensalmente, pode proporcionar uma agradável e intelectual leitura do ócio e da informação. Colunistas como, Efigênia Alves, Osmar Negreiros e muitos outros que enriquecem este periódico, se esmeram na produção de riquíssimos textos, dignos da produção de uma obra literária a ser registrada nos anais culturais de Jaguaribe. Por tal iniciativa desbravadora, parabenizo Sandoli Diógenes, filho e filhas; por arvorarem essa bandeira da difusão jornalística.
Despeço-me de Jaguaribe, cônscio do aprendizado e da maturidade aqui adquiridos, agradecido pelos rebentos gerados neste torrão e guardando em minha memória a cultura do filé, do queijo, das famílias e das variações linguísticas tão peculiares, que sempre utilizarei como exemplo em minhas tão singelas aulas. A antiga “cafona” (nosso dindim gourmet), mesmo não podendo degustá-la por causa da diabetes, será sempre retomada nas salas de aula da vida. Valeu Jaguaribe!
Francisco Fernandes

Jaguaribe, 10 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dindim Gourmet

Jamais contemplei tão belo crepúsculo! A cidadezinha com características provincianas localiza-se entre uma autoestrada federal e a margem direita de um rio. A aurora se dá por trás de uma cordilheira de serras que divisa um estado de outro e o sol, vermelho como uma grande bola de fogo, se oculta do outro lado do rio. São, precisamente, 30 de novembro de 1993 e chego de uma grande metrópole para adaptar-me a uma cidadela de aproximadamente 30 mil habitantes, que se distribuem entre a sede do município e cinco distritos. A urbe se localiza entre os dois postos de combustível que estão nas duas extremidades, pois é uma faixa populacional espremida entre a citada BR e o famoso rio. As pequeninas casas do Cruzeirinho de Aluísio Diógenes, sem o mínimo de infraestrutura e saneamento básico, se difundem entre ruelas enlameadas e a esperança política de suas reconstruções em regime de mutirão. Na outra extremidade, na parte de cima da cidade, às margem do rio Jaguaribe, está o Curralinho, comunidade de uma rua só, sem iluminação elétrica e sem calçamento, onde a bodega de Juvenal puxa energia da fazenda de Zé de Mundim. O hospital de Zé Campelo concorre com o SESP e o Colégio Clóvis Beviláqua com o Carmela Dutra. Do outro lado da BR 116, para os lados de quem vai para o Icó, inicia-se um novo bairro, a vila Zé Pinheiro, e com o valor de um salário mínimo é possível adquirir um lote de terra que pode ser escolhido da beira da rodagem até a orilha do riacho da barragem de seu Dé. O point do momento é a lanchonete do Miquim, “Antes e Depois”, que está no calçadão do centro da cidade, onde tem a melhor batata frita já degustada e o artista Osmar Negreiros - como ele não existe para os lados de cá, quiçá em todo o vale do Jaguaribe - inicia suas obras de arte no paredão do parque de vaquejada. Como ainda não me adaptei a esta pacata vida interiorana, ansiosamente espero o final de semana para embarcar no “seletivo” da Empresa Vale do Jaguaribe. O ônibus é de luxo, com ar condicionado, TV com vídeo e rodomoça para servir lanches durante o longo trajeto de 300 km, rumo à Grande Fortaleza.
Ouvi dizer que é nesta região onde há uma das maiores desertificações do país. A caatinga, bioma não encontrado em nenhum outro lugar do planeta, somente no sertão nordestino, está sendo quase que completamente arrasada. Isso ocasiona um grande desequilíbrio ambiental e logo desaparecerão os preás e as aves de arribação que sobejam nas feiras de sábado. Essas iguarias sempre fizeram parte da mesa e da cultura do sertanejo, basta lembrar das narrativas de “O sertanejo”, “Os sertões”, “O quinze” e os inúmeros romances que contam a saga desse povo aguerrido. Não é à toa que o uso de nomes de animais dessa fauna alcunhem algumas famílias daqui. Para nós, forasteiros, pode até ser cômico, mas, na verdade, deveriam fazer parte do patrimônio imaterial dessa gente. Talvez os próprios membros dessas famílias se sintam envergonhados com o apodo, porém, tanto os Urubu, como os Caçote, os Gato, os Cururu, estarão sempre em qualquer registro futuro deste município. É estranho também para mim, quando me perguntam quantos “bichim” eu tenho e demorei pouco para entender que perguntam da minha prole. Respondo que chego aqui com uma “bichinha”, na certeza de que terei um lugar tranquilo e seguro para educá-la. Ambiente totalmente oposto da imagem negativa que me passaram, quando disse que iria morar em Jaguaribe, pois todos a denominavam de “terra da pistolagem”. Prefiro a insígnia “terra do queijo”.
Chego à sombra da minha esposa, que vem a trabalho e já sei, devido à minha insignificância, que serei chamado de Francisco de Alcinete, pois essa peculiaridade da região muito me encanta e não vejo algum demérito nisso. São muitos os populares que recebem no nome a marca indelével de um ente próximo, seja pai ou mãe, marido ou mulher: Maria de Zé Albenes, Maria da Cabocla, Zezim de Eli, Maria de Marcelo, Toim de Zé Olímpio, Paulo de Netim, Dedé de João do Óleo etc. Bem aventurado aquele que traz no seu nome a lembrança de pessoas respeitadas, queridas, amadas.
Estranho um pouco, mas somente em Jaguaribe conheci uma das variações linguísticas mais exóticas da Língua Portuguesa e não adianta pensar de forma pejorativa, quando te convidarem para chupar uma “cafona”. Dê uma mordida na ponta ou no fundo do saco e se delicie com o prazeroso sabor desse manjar, que futuramente será chamado de dindim gourmet.
25 anos depois... aguarde na próxima edição.   
    
Francisco Fernandes

Jaguaribe, 16 de julho de 2017

sábado, 22 de julho de 2017


Quarteto Fantástico

Aos dois meses de idade foi acometido de uma febre acima de 40°, com muita tosse e olhos inflamados. Não demorou muito para perceberem pequenos pontos brancos no interior de sua boca e, não muito depois, apareceu uma mancha vermelha e plana, iniciando no seu rosto e espalhando para o resto do corpo. Era sarampo! Não havia sido vacinado e a consequência foi a perda total da visão. Estava relegado ao descaso e a ser um estorvo para os seus familiares, pois precisaria de acompanhamento total na realização de atividades básicas, teria dificuldades para se locomover, não aprenderia a ler e escrever, não teria como brincar com os coleguinha de sua idade. Batizaram-no de Aderaldo e com o passar do tempo foi-lhe acrescentada a alcunha de Ceguinho.
Em outro lado da cidade, a mesma em que Aderaldo crescia excluído de qualquer participação social, vivia uma bela garota, um pouco distinta das demais de seu convívio, pois nascera com os olhos puxados, os dedos curtos e grossos, a cabeça arredondada, os cabelos finos, dentre outra características congênitas. Sua mãe tinha mais de 40 anos quando engravidou dela e, não fazendo o pré-natal, o seu nascimento foi uma surpresa para todos, inclusive gerando desconfiança sobre a sua paternidade, uma vez que não havia semelhança alguma com seus dois irmãozinhos. Distintamente de Aderaldo, Yori tinha um convívio familiar tranquilo, em que seu potencial para superar seus limites era devidamente estimulado. Recebeu um nome de origem japonesa que significa “dependência”, por causa das suas feições orientais e pela consciência materna de que dependeria dela para quase tudo.
Austin não se relacionava “tipicamente” com as outra crianças, não tinha amigos próximos, não olhava olho no olho, pois tinha deficiências na comunicação, prejuízos na interação social e comportamento repetitivo e restrito. Foi-lhe atribuído tal nome porque significa “sublime”, pois suas qualidades ultrapassariam o comum. Não se sabe realmente a causa de seu transtorno. Há a hipótese de herdabilidade, mas é quase descartada, já que não há sequer um caso no histórico familiar. Outra possibilidade seriam fatores ambientais como: stress, infecções, exposição a substâncias químicas, complicações durante a gravidez ou desequilíbrios metabólicos. Nada disso parece constar no relato clínico do casal. Resta somete a proposição genética. Não importa! Será amado e terá um cuidado todo especial.
Não se pode dizer o mesmo de Ismael. Os cuidados para com ele não foram muito bons e, ainda que tenha nascido em uma família abastada, passou a ser considerado como uma maldição, depois que descobriram que não conseguia reagir aos sons que o circundavam. O nome de origem hebraica significa “Deus ouve”, mas Ismael não ouvia, coincidência ou não! O pai, judeu praticante, acreditava ter sido castigado como foi o sacerdote Zacarias, pai do profeta João Batista, por não acreditar na gravidez tardia da esposa. Uma lástima! O castigo caiu sobre o filho, cria desta forma. A mãe teve rubéola quando estava grávida, provável causa da surdez congênita.
Um grande vilão assolava as nações com super poderes, até então, insuperáveis. Suas garras eram afiadas e penetrantes e os braços semelhantes a tentáculos com ventosas que, além de sugar as consciências, mantinham suas presas alienadas e totalmente incrédulas em relação à aceitação de alguém que não estivesse dentro dos padrões impostos por ele. Chamava-se Exclusão e dominava o mundo, até se revelar o quarteto fantástico: Aderaldo, Yori, Austin e Ismael.
Juntos formavam a força poderosa contra o inimigo. O primeiro criara meios e artifícios para se relacionar com sua deficiência, pois usava outros sentidos como o tato e a audição, valendo-se de aspectos subjetivos para perceber o mundo. Ela, devido à carga de estímulos e de amor recebidos dos pais, amigos e familiares, desenvolveu um grande potencial para superar limites, para acreditar em si mesma e para desenvolver autoconfiança. Componentes indispensável para romper um dos tentáculos do grande monstro. O outro, como foi bem estimulado e educado, tornou-se sumamente obediente e, graças a sua literalidade, passou a cumprir com gosto muitas disposições que, em outros casos, ocasionariam em rebeldia e desengano. Mais um ponto fraco da abominável anomalia foi atingido! Por fim, o último super-herói, que havia vencido o antagonismo da falta de comunicação e adquirido autonomia através da LIBRAS, agora estava pronto para aniquilar, juntamente com seus companheiros, as forças do temível oponente. Exclusão derrotada!!  

Homenagem aos componentes do AEE (alunos e professores) da EMEIEF Dep. José Martins Rodrigues, Maracanaú – CE.

Francisco Fernandes

Jaguaribe, 22 de julho de 2017